Friday, December 29, 2006

Yemanja 2007

Gostaria de me preocupar menos
De expressar menos
De sorrir mais
Gostaria de enrugar menos
De chorar menos
De pular mais

Gostaria de desligar as vozes
De noticiários menos
De arte mais
Gostaria de desligar posses
De comandos menos
De sambar mais

Quero ver os palhaços nos terreiros
Rio de lágirmas alegres em Janeiro
Atabaque`n`roll verdadeiro

Me banho em teus pés e peço
Novos ventres geram novas mentes
Me renovo e me despeço
Águas passadas não me levam a frente

Me estresso menos
E ajo mais
Me adio menos
Avanço mais

Wednesday, December 27, 2006

Considerações Natalinas

Véspera de Natal, telefone toca, e do outro lado da linha o amigo empolgado:

- Feliz Natal, caaraaa! Tudo de bom pra você e pro pessoal aí!
- Vai pra puta que o pariu!
- Que? Tá maluco, irmãozinho?
- Maluco porra nenhuma, tu fica quase 2 anos sem me ligar e agora vem com esse papo de"Feliz Natal"?

- Poxa, cara... não precisa...
- Não precisa é o escambau, além do mais o que siginifca "Feliz Natal"? Quando você diz "Feliz Ano Novo", você deseja um ótimo ano pr`aquela pessoa e tal...
mas "Feliz Natal" não significa nada...
- É, você tem razão...
- E mais, Natal pra mim é uma data católica e capitalista-consumista... como não sou nem um e nem outro, então qualquer comemoração, pra mim, é totalmente dispensável...
- Aí, irmãozinho...
- O que?
- Vai pra puta que te pariu você também!

- Alô?
-Tu-tu-tu-tu-tu...

Monday, December 18, 2006

Pezadello



"...as vozes ainda pertubam e confundem
No fechar dos olhos, cenário cotidiano
Asfalto, cimento e corpos imovéis deixam recado
Talvez rotina, mas ainda me acelra os batimentos...


...sim, tive um sonho ruim e acordei chorando

Porém não te liguei como naquela canção
O som das horas que distanciam relembram o óbvio:
Seu colo já não é o meu melhor recanto..."


Wednesday, December 06, 2006

Pelo Lado Direito

Tum, titum, titum-tum!

É buzina, sirene e apito do guarda de farda cinza como o asfalto quente. É música enlatada no som do carro do playboy, é "tio, me dá um trocado, aí!" e "3 devedê por 10". É pedestre na rua, carro na calçada, mas atravesse na faixa e dê preferênica para idosos e gestantes! Próxima estação: panfleto de puteiro, panfleto de "dinheiro fácil", quem disse que não dá? Pois se não der que "deus lhe pague"!

Che Guevaras almoçam no fast food, enquanto patricinhas compram no ambulante. O executivo faz sua fézinha no jogo do bicho enquanto o muçulmano acende vela pra São Jorge sem agredir Alah.

Tic-tac! Tic-tac! Tic-tac!

Muita calma nessa hora... do rush! É um esbarra aqui, desvia ali, criança segura no pai suado que pega, estica e puxa sua mão com o mesmo fervor da evangélica que carrega a bíblia surrada.

Sinal fechou... e lá se vão mulheres importantes, universitários perdidos, bundas rebolativas, paletós amarrotados com maletas de papéis da bolsa de valores da vida tão ordinária quanto o camelô que ganha mais do que o médico daquele hospital público ao lado da igreja da chacina de 93!


Biiip! Bééééhn! Pããã!

Sinal abriu e lá se vão latas-velhas, ônibus lotados, motos barulhentas, carros populares, importados à prova de bala e a prova de gente! E assim vão preenchendo as veias e artérias de cimento de uma cidade combalida que fabrica stress em forma de marra disfarçada em canções que dizem que não gostamos de sinal fechado.

Reduza a (minha) velocidade! Meu cérebro agradece às pernas pelos passos cadênciados. Mais calmo, paro e reparo que meus olhos estão surdos de fumaça! Céu, Quero um pedaço de! Em meio a tantos prédios que arranham, não raciocino nenhum trocadilho infâme capaz de prencher mais um parágrafo!
Desacelero.

Tuesday, November 21, 2006

Sobre a Luta

E eu que sempre fui de fazer passeata.
Que já fui protesto, que já fui manifestação.

Eu que sempre fui pra rua.
Que já fui barulho, que já fui reivindicação.

Eu que sempre fui de luta.
Hoje creio no silêncio como melhor forma de protesto.

Wednesday, November 15, 2006

Recado do Reino (Não Chores)

Não chores pequena princesa.
Sabes o que diriam ao ver-te com os olhos cheios de lágrimas.
Aquele reino avermelhado, de duas entradas e duas saídas, ainda é seu.
Como tu bem sabes, a vida naquele povoado precisa seguir.
Há música no coreto, não como antes, mas há.

Não chores linda princesa.
Sabes que diriam que tu choras baixinho feito criança.
Aquele reino que te abraçou e aplaudiu ainda está de portões abertos.
Como tu bem sabes, aquele povo já passou por poucas e boas.
O bobo da côrte ainda faz graça, não como antes, mas faz.

Não chores princesa.
Sabes que quando choras, choram com você.
Aquele reino vermelho que te abraçou ainda é seu.
Como tu bem sabes o povo quer seguir em sua companhia.
Há música, há o bobo, não como antes, mas há.

Tuesday, November 14, 2006

Avesso

Rua de sexta me chama, mas não vou.
Telefone toca por meu nome, mas não estou.
Prefiro a brisa da varanda, mais um gole e o próximo parágrafo.

Começo a te descobrir de dentro para fora.
Naquilo que mais te encanta.
Naquilo que me fascinou em ti.

Começo a te despir de dentro para fora.
Pelas entrelinhas do autor.
Pelas indas e vindas do amor.

Agora já não tenho pressa.
Reinvento o tempo e atravesso as páginas.
Reconsidero nossos atos por alheias palavras.

Estou submerso em amores leves como chumbo.

Ou pesados como pluma? Cabe a nós a decisão.
Subverto a ordem dos fatos, mas não a lógica.

O que teríamos em comum com eles?
Tudo, nada? Rio de Janeiro ou Praga?
Ah, o eu-lírico! Você pediria pra eu não me importar.

E não me importo, não mesmo.
Lendo e relendo trago suas palavras pra perto.
Logo trago você, ou pelo menos partes.

Thursday, November 09, 2006

Pés Molhados

Em uma praia daquela cidade, 1:43 da madruga.

Ele lá sentando, olhando como fica bonito o mar a noite.
As ondas que quebravam lindas e assustadoras, ganham outro contorno a noite. É diferente, tudo ganha uma nova ótica no silêncio da brisa noturna que sopra suave. É possível relaxar, é possível analisar até mesmo as ondas que se misturam ou as que começam e não terminam.

Fica bonito ele lá sentado a noite, olhando o mar.
As ondas nunca se repetem, nunca. Os ventos mudam, e por mais parecidos que sejam nunca gerarão a mesma onda. A noite você percebe isso, não há buzinas, não há pressa nos passos, não há fumaça, não há (a sensação de) violência pra te confudir. É possível voltar no tempo e relembrar de ondas que já te derrubaram, que te banharam ou até mesmo as primeiras ondas que você viu.

A noite fica bonito, o mar, ele sentado olhando.
As ondas nos ensinam. Se você não aprende com o mar por bem, aprende por mal. Quem nada contra a corrente se cansa, quem abusa se afoga, quem tem medo não observa suas belezas.

Saiba que não é possível olhar a superfície e o horizonte ao mesmo tempo. Tão pouco você será capaz de vir a tona para respirar e admirar a beleza que ele esconde em suas profundezas simultaneamente. Ache o meio termo e desfrute.

Sente na areia, tire o seu calçado, desligue o celular e pare alguns segundos de frente pro mar. Não diga nada, até porque não é necessário. O mar conversará com você, pelo menos com ele foi assim.

Wednesday, October 25, 2006

Masdemodisquê (Palavras Que Predecem)

E depois da quinta dose ela desistiu desse papo de amores perfeitos.
Ele de ser um cara legal.
Mais um gole, e encontram nos defeitos suas afinidades.
Ele machista e cabeça-dura.
Ela meio desajeitada e possessiva, apesar de toda dissimulação.

Mais uma rodada.
Ele não quer mais nada, além de esquecer aquilo que o incomoda há semanas.
Ela só afeto e palavras doces, mesmo que falsas.
O barulho em volta impede qualquer papo que exija um reflexão mais profunda.
Mas ele não se importava também.
Ela muito menos.

Mesmo assim Cazuza, Vinícius, Djavan (CD, Vinil ou IPod?), Jabor, Dan Brown, Veríssimo (Erico ou Luis Fernando?), Lula, FHC, PT, PSDB, não sei mas o que e outros blá-blá-blás preenchiam o tempo anterior a real intenção de ambos.

Pessoas passam. Começa a chover.
Terminam as pessoas. Pára a chuva.

Silêncio.
A conta.
Ele paga ou ela paga, ambos pagam, garçom recebe, dá o troco, pega a gorjeta.

Taxi.
Chegaram ao destino.
Ele paga ou ela paga, ambos pagam, taxista recebe, dá o troco, não há gorjeta.

10 minutos disso. 20 daquilo. Mais 30 daquilo outro.
A conta.
Ele paga. Não dá gorjeta.

Ele satisfeito, ou não.
Ela nem tanto.
Ele quer voltar a ser um bom rapaz.
Ela quer um romance ideal.

Mas eles sabem que nessa cidade não é comum achar pessoas que se entendam a partir de um mero olhar. Palavras que precedem se fazem necessário, e mesmo assim o sucesso não é garantido.

Tuesday, October 17, 2006

Quebra-Molas On Line

E nós voltamos naquela rua comprida e estreita que foi palco da nossa infância. O meio-fio de pedras tortas, que vez por outra causava bolhas nos pés afoitos dos meninos na hora do pic ainda estava lá. Apesar dos 15 anos passados, alguns buracos mal remendados também permaneceram.

Mas o vapor que soprava nos verões e fazia derreter em 1 minuto os sacolés da tia Vera agora era mais abafado. Olhando pro pouco céu que restava senti falta das pipas, que ao entardecer formavam um balé colorido não ensaido. Escassas também se tornaram as sombras providenciais das árvores. Ouvi dizer que podaram todas, questão de segurança.

No lugar da casa do seu Milton (o velho surdo que sempre agradava a garotada com as suas mangas e goiabas), do seu Guilherme (o primeiro lusitano que sabia mais de 300 piadas de português) e da Dona Lena (a vizinha ranzinza que sempre furava nossas bolas compradas com muito sacrifício) ergueram-se três caixas de concreto, 4 andares cada, com grades, câmeras e 2 vagas na garagem.

Aliás, essas tais vagas me pareceram insuficientes, pois naquele final de semana as calçadas estavam tomadas pelos carros. Desci o olhar pro asfalto e notei dois, três, quatro, cinco quebra-molas ao longo daquilo que era o nosso Maracanã. Um amigo das antigas me garantiu que mês que vem vai ficar melhor, vão colocar cancelas nas duas entradas da rua.

Nosso papo é interrompido pelo menino que faz as entregas da loja que hoje funciona onde era a antiga quitanda do seu Manoel. Você pode encomendar via telefone ou internet, aceitam todos os cartões de crédito e entregam em menos de 15 minutos.

Friday, October 06, 2006

Todo Aquele Cinza

Tire a roupa!
Desculpa a sinceridade mas o teu corpo tem sido o meu melhor refúgio nestes últimos dias... ...não pense você que aquele cara romântico que você conheceu se foi, mas sabemos exatamente que é misturando o suor que nosso sentimento se consuma da melhor forma...

Dispa-se!
Temos um pouco mais de 4 horas até o sol nascer, engolir o café mal feito e encarar olhares estranhos, passos apressados e todo aquele cinza. Vem logo, encosta teu corpo ao meu, e deixa tudo mais fácil...

e...
nem...
percebi que amanheceu...

Te olho dormindo e vejo ali a minha paz e a busca de novos rumos, talvez você nunca saberá disso... ...ando pensando muito em nós.

O despertador me avisa que é hora de ir. Te acordo com um beijo no rosto.

Tuesday, October 03, 2006

A-d-e-u-s

Agachada no quarto apertado, terço nas mãos apoiadas na velha mesa de cabeceira onde se encontrava um mini altar, um pequeno santuário ou algo próximo disso. As imagens de São Cosme e São Damião conviviam bem com a de Iemanjá que ficava bem ao lado de uma oração de Chico Xavier escrita à mão numa folha de caderno do seu filho.

Ele que justo naquelas primeiras horas daquela manhã dominical era o principal motivo da sua preocupação. Havia saído as 10 horas da noite de sábado, não informou o destino ao certo. Sua satsifação se resumiu apenas em dizer que ia "sair com a galera".

Durante a madrugada ela ouviu tiros, não soube perceber se vieram do asfalto, ou se veio do morro de trás. Na rádio AM, que aprendeu a gostar por causa de sua avó que costumava arrumar a casa na companhia dos locutores de voz anasalada, só escutava notícias nada animadoras que ecoavam na mente.

Passam-se as horas, esgotam-se as orações, celular fora de área...
Larga o terço, abre a geladeira coloca meio copo de água que desce com gosto de remédio pra dor de barriga. Senta-se no banco de plástico e apoia a cabeça com as mãos na mesa. Não há mais o que fazer, resignou-se e entregou "à Deus" pára não ter que dar adeus aquilo que de mais valioso ela tinha.

O latido do vira-lata interrompe sua agonia, o tênis arrastando no chão confirma: era ele, pois ela sabia de longe o ritmo daqueles passos e o jeito como aqueles pés tocavam o chão. O filho chega, cara de cansado, dá um beijo na mãe, abre a geladeira, coloca um copo cheio de Coca-Cola, bebe com satisfação. Dá outro beijo na mãe e se joga no sofá para dormir o sono dos justos.

Ela ajeita o lençol, engole o choro e respira aliviada. Coloca uma roupa para ir a feira daquele bairro de ruas estreitas da cidade onde as mães envelhecem mais rápido e todas as orações são válidas.

Wednesday, September 27, 2006

Dumembolada, dum-dum!



Resolviembolar, decidimisturarpara vernoquedá
jádiriaovelhoguerreiro-ro-ro-ro!
nãoquero explica
rex
plicar
menteconfusa confessano quilombomoderno
de i-
i, de imaginaçãão!!
Nãotententender-
nem-tente... nãotente!
Não
tenho essaintenção!
rewind
, wind ind!
diriaovelhoguerreiro-ro-ro-ro
confessano
quilombo
moderno-erno-erno
cocotas de saia e senhores de terno
confessano quilombo moderno
-erno-erno
drum´n´bass, dub emsom stereo!


Texto: Igor2m
Desenho: The Lonely One
Artista:
Aaron Gritzka
Trilha sonora vespertina: Faixa 04 - "Changez Out" (Monoaural mix) Kassin & Berna Ceppas - CD Otto - Changez Out - Samba Pra Burro Dissecado

Monday, September 25, 2006

Porta-retrato

Já não havia tempo pra mais nada, papéis assinados, burocracias resolvidas. Decidido, ele colocava o que restou de suas (poucas) miúdezas na caixa de papelão: um porta-retrato com a foto de sua família, um duende de durepox, presente de alguém que ele não lembrava quem por mais que se esforçasse.

Sua honestidade não lhe permitia dizer pra si mesmo que aquele apartamento era a oitava maravilha do mundo, muito pelo contrário. No verão se tornava uma verdadeira fornalha, o sol batia na janela da sala das 9 da manhã até as 5 da tarde, impedindo-o de qualquer possibilidade de concentração para compor uma nova letra. Isso pra não falar dos dias congelantes de julho, que ao menos lhe garantiram alguns porres solitários de vinho vagabundo.

Porém, sabia que iria sentir saudades daquela rua, do carinho das irmãs velinhas de sotaque árabe que o ajudaram quando ele ali chegou, do solícito seu Antônio, porteiro prestativo que o socorreu nas piores horas.


Refletiu sobre tudo isso, e de como a vida às vezes fala com a gente e nem percebemos. De como são tolas as pessoas que acham que o amor só se manifesta em um beijo, numa transa, em cartas de amor, ou coisas semelhantes. Todas aquelas pessoas que cruzaram seu caminho fizeram com que ele súbitamente refletisse sobre tudo isso, como nunca o fizera antes.

Mas nada o fazia mudar de idéia. Os últimos dias com aquela que até dias atrás fazia inúmeros planos foram decisivos. A ausência, as divergências, foram minando. Sentimento não faltava, vontade também não. Mas a falta de esperança num futuro junto a ela soava como vertigem para ele que gostava de sonhar. E tudo o que você precisa as vezes é de que estejam com você. Pode parecer óbvio, mas não é, não pra ele.

Era hora de fazer uma curva em sua história, aliás já havia passado da hora. E de certa forma aquele apartamento foi palco de muitos momentos com ela: uns bons e outros nem tanto. Se a mudança de ares iria lhe fazer bem só o tempo irá dizer.

Deixou as chaves em cima da mesa, despediu-se dos vizinhos. Para ela, escreveu uma carta numa folha de ofício meio amarrotada, pois sabia que se fosse terminar tudo pessoalmente não teria coragem.

Sunday, September 24, 2006

Comando Azul














Em 2004 denunciaram os jornais
Como se fosse novidade
Nos asfaltos, vielas e demais
Arrancando deprezo da cidade


Bonde caçando bonde
Traçante, traficante
Mandante, paz reinante


Nas ruas os tribunais
Tumultuando
Defensores da paz
Atrasando

Modernos capitães do mato
Comando Azul, se te pegam no ato
Reze!

Thursday, September 21, 2006

O Acerto

- Não é você, sou eu, entende?
- Hã? Repete que eu não entendi.

O som vindo das enormes caixas fazia tremer as janelas dos prédios mais próximos e impedia qualquer possibilidade de um diálogo.

- O problema sou eu, Fabinho!
- Como assim, gata? Não to sacando ainda...
- Tem a minha faculdade, meu curso, meu estágio... não dá, mais!
- Porra, como não dá? E tudo o que fiz por você? Todos os riscos que passei pra ficar contigo?
- Fabinho, você não entende...

Realmente não entendia. Aquela altura da madrugada ele já havia apertado uns 5 baseados com seus amigos, fora as cervejas que lhe eram oferecidas por gente que o admirava. Geralmente era assim às sextas-feiras: a quadra lotada, "soldados" de metro e meio desfilando com fuzis atravessados no peito ou pistolas na cintura, chamando à atenção das meninas da comunidade e inclusive das patricinhas que chegavam ao baile acompanhadas dos playboys que muito provavelmente gostariam de ter uma 9 milímetros debaixo dos seus blusões de surfista.

- Porra, Mila, o problema sou eu sim, diz aí... para de caô e diz logo...
- Não amor não é... eu preciso de um tempo, entende?
- Tempo? Tempo pra quê? Você não aceita o que eu sou, fala a verdade!
- Fabinho, você está sendo injusto!
- Injusto, porra nenhuma, essa é a verdade tu não quer mais, né?? Não quer ser vista comigo, tem vergonha de mim...

A discussão do casal é interrompida por um dos soldados de Fabinho, que chega quase sem fôlego e apressado para avisar ao chefe que os "hômi" estavam lá embaixo alegando não terem recebido o "arrêgo" para que o baile rolasse sem problemas.

- Já volto, só preciso acertar a grana dos canas, guenta aê...
- Tudo bem.

Se despediram com um breve beijo. Aquela foi a noite mais quente do verão de 1989, e para Camila a mais triste também. Hoje ela é médica formada, dá aula em uma universidade federal do Rio de Janeiro. Sobre Fabinho ela nunca mais teve notícias.

Friday, September 15, 2006

Calçada Testemunha





















Cão de rua
Sem dono
Sem rumo
Cão de rua
Sem trono
Sem muro

Liberdade?
Liberdade!
Liberdade.
Liberdade...

Thursday, September 14, 2006

O Terno e o Mantra

Era sempre assim. Bastava ele pisar na estação do metrô para a vendedora de cartões telefônicos anunciar que a semana começara para ele e mais uns milhões de brasileiros também. Não raro ele tinha pesadelos com aquela voz irritante. Era algo sincronizado, num ritmo inabalável:

- Cartões pré-pago: Claro, Oi, Tim, Vivo, Eeembratel e Telemar!
(pausa)

- Cartões pré-pago: Claro, Oi, Tim, Vivo, Eeembratel e Telemar!
(pausa)

O anúncio soava como um mantra as avessas, fazendo despertar naquele sossegado rapaz os “instintos mais primitivos”, sendo assim não era raro pegar a si próprio planejando a maneira mais rápida e silenciosa de executar a pobre coitada.

Especialmente naquela abafada manhã de segunda-feira que nascia com gosto de guarda-chuva molhado na boca e cabeça pesando uns 100 quilos. Na noite anterior havia tomado todas, pra esquecer da vigésima briga que teve com ex-atual-ficante-futura-namorada em menos de 2 semanas.

Não sabia se estava mais puto por tudo o que havia dito ou por todas as verdades que escutara dela. Incontestável mesmo só a certeza de que a combinação cerveja, caipirinha e vodka não traziam a pessoa amada em três dias, como essas mães-de-santo prometem em cartazes vagabundos colados nos postes.

Saiu do metrô na estação carioca. Não eram nem 9 da manhã ainda e o sapato já apertava. O terno azul marinho meio amarrotado agravava a sua agonia. A ultima ponta do seu humor sarcástico se esvairia só de pensar que teria que passar metade do seu dia despachando naquele escritório de 10m x 10m.

O dia se arrastou até o fim do seu expediente. Voltou pra casa como um soldado voltando de uma exaustiva guerra. Dor de cabeça, sono atrasado, metro lotado. Tudo o que desejava era sua cama.

Já eram quase 24 horas de ressaca, 5 horas para o sono renovador...

(pausa)

- Cartões pré-pago: Claro, Oi, Tim, Vivo, Eeembratel e Telemar!

Tuesday, September 12, 2006

Numa Noite Dessas

- Socorro! Ladrão!

Os gritos são de uma moça de uns 20 e poucos anos e cortam a calmaria daquela rua residencial de um tradicional bairro de classe média da cidade. Correria, barulhos de buzina, dois tiros são disparados. O jovem de pele “parda” (aquele termo politicamente correto para identificar aquele que não pode ser considerado branco e tem vergonha em dizer que é negro) cai como jaca podre no chão.

O tiro veio de um dos seguranças da rua, que acompanhado do guardinha do shopping daquela mesma rua abordam o garoto de aproximadamente 18 anos e 1,70m :

- E agora, seu filho da puta, Vai roubar de quem?

- Pois é, quem é o malandro agora, hein? Diz aí, otário! Fique sabendo que ninguém rouba na minha rua!

Caído no chão e sangrando na altura do ombro direito o assaltante respirava com dificuldade. Não bastasse a dor do ferimento, um dos seguranças lhe fez a gentileza de pressionar-lhe o tórax com um desses tênis importados, com 6 ou 12 molas talvez.

A moça que fora assaltada permanece atônita, chorando.

Não demorou nem 5 minutos, a rua que as nove da noite estava praticamente deserta atrai curiosos. Um homem de meia-idade, trajando um desses ternos de grife, voltando do trabalho, comenta com um senhor de 60 anos que “bandido bom é bandido morto”, balançando a cabeça para cima e para baixo o idoso concorda.

A adolescente com roupa de ginástica olha assustada de longe e comenta com o namorado:

- Acho que essa cidade não tem mais jeito.

- É verdade, a sociedade não se mobiliza – conclui ele, ajeitando a gola da camisa de marca.

Em menos de dez minutos um ronco barulhento de motor anuncia a chegada de uma viatura da policia militar. Os dois policiais saltam do Gol caindo aos pedaços sorridentes, cumprimentando os seguranças da rua como se fossem velhos amigos:

- Ora, ora, o que temos aqui? Pode deixar que cuidaremos dele com carinho.

Levantam o rapaz pela camisa (da mesma marca que a do namorado da menina do outro lado da calçada, aliás) jogando-o para banco de trás da capenga viatura. O carro acelera forte deixando uma fumaça fedorenta e turva no ar.

Em menos de dois minutos a rua volta a sua normalidade, com a rapidez de um suspiro de alívio, sumiram o velho, o homem, o casal e quem mais estivesse ali. Tranqüilidade absoluta, o silêncio era tão grande que se não fossem os apitos das garagens se abrindo, da calçada podia-se ouvir a musica do Jornal Nacional com perfeição.