Monday, September 25, 2006

Porta-retrato

Já não havia tempo pra mais nada, papéis assinados, burocracias resolvidas. Decidido, ele colocava o que restou de suas (poucas) miúdezas na caixa de papelão: um porta-retrato com a foto de sua família, um duende de durepox, presente de alguém que ele não lembrava quem por mais que se esforçasse.

Sua honestidade não lhe permitia dizer pra si mesmo que aquele apartamento era a oitava maravilha do mundo, muito pelo contrário. No verão se tornava uma verdadeira fornalha, o sol batia na janela da sala das 9 da manhã até as 5 da tarde, impedindo-o de qualquer possibilidade de concentração para compor uma nova letra. Isso pra não falar dos dias congelantes de julho, que ao menos lhe garantiram alguns porres solitários de vinho vagabundo.

Porém, sabia que iria sentir saudades daquela rua, do carinho das irmãs velinhas de sotaque árabe que o ajudaram quando ele ali chegou, do solícito seu Antônio, porteiro prestativo que o socorreu nas piores horas.


Refletiu sobre tudo isso, e de como a vida às vezes fala com a gente e nem percebemos. De como são tolas as pessoas que acham que o amor só se manifesta em um beijo, numa transa, em cartas de amor, ou coisas semelhantes. Todas aquelas pessoas que cruzaram seu caminho fizeram com que ele súbitamente refletisse sobre tudo isso, como nunca o fizera antes.

Mas nada o fazia mudar de idéia. Os últimos dias com aquela que até dias atrás fazia inúmeros planos foram decisivos. A ausência, as divergências, foram minando. Sentimento não faltava, vontade também não. Mas a falta de esperança num futuro junto a ela soava como vertigem para ele que gostava de sonhar. E tudo o que você precisa as vezes é de que estejam com você. Pode parecer óbvio, mas não é, não pra ele.

Era hora de fazer uma curva em sua história, aliás já havia passado da hora. E de certa forma aquele apartamento foi palco de muitos momentos com ela: uns bons e outros nem tanto. Se a mudança de ares iria lhe fazer bem só o tempo irá dizer.

Deixou as chaves em cima da mesa, despediu-se dos vizinhos. Para ela, escreveu uma carta numa folha de ofício meio amarrotada, pois sabia que se fosse terminar tudo pessoalmente não teria coragem.

7 comments:

Anonymous said...

AMEI! e o amor está em tudo que se faz com amor! Redundante? nem tudo q parece óbvio c faz óbvio como tu tão bem escreveste.
Qdo tu fores lançar o teu livro de contos no 'Letras&Expressões', ñ c esqueça do meu livro autografado e com dedicatória, ok? rs....
Bjos

Anonymous said...

Ahhh.. não vou comentar esse aki não pq vc já sabe minha opinião..rsrsrs
Bjo!

Anonymous said...

Show de bola!Sempre achei que você ia arrasar se resolvesse escrever a vera,mostrar pra todo mundo esse mundo criativo incrível que você tem aí dentro...não deu outra...rs!Lendo seus posts,tenho a certeza do seu talento com as palavras...e com as idéias,principalmente...e isso é o principal!E é o que te faz esse cara simplesmente foda.Sempre que der passarei aqui pra ver suas produções,meu amigo.:)
Muitos beijos!

Anonymous said...

Ah,só pra completar...rs..."porta-retrato" foi sensacional..."Refletiu sobre tudo isso, e de como a vida às vezes fala com a gente e nem percebemos..." sem comentários! :)
SHOW!
Beijos!

Anonymous said...

Simplesmente FODA!!

Anonymous said...

Um ótimo texto...faz a gente parar e refletir mais um pouco.

Bjussss

Anonymous said...

Belo texto.