Tuesday, September 12, 2006

Numa Noite Dessas

- Socorro! Ladrão!

Os gritos são de uma moça de uns 20 e poucos anos e cortam a calmaria daquela rua residencial de um tradicional bairro de classe média da cidade. Correria, barulhos de buzina, dois tiros são disparados. O jovem de pele “parda” (aquele termo politicamente correto para identificar aquele que não pode ser considerado branco e tem vergonha em dizer que é negro) cai como jaca podre no chão.

O tiro veio de um dos seguranças da rua, que acompanhado do guardinha do shopping daquela mesma rua abordam o garoto de aproximadamente 18 anos e 1,70m :

- E agora, seu filho da puta, Vai roubar de quem?

- Pois é, quem é o malandro agora, hein? Diz aí, otário! Fique sabendo que ninguém rouba na minha rua!

Caído no chão e sangrando na altura do ombro direito o assaltante respirava com dificuldade. Não bastasse a dor do ferimento, um dos seguranças lhe fez a gentileza de pressionar-lhe o tórax com um desses tênis importados, com 6 ou 12 molas talvez.

A moça que fora assaltada permanece atônita, chorando.

Não demorou nem 5 minutos, a rua que as nove da noite estava praticamente deserta atrai curiosos. Um homem de meia-idade, trajando um desses ternos de grife, voltando do trabalho, comenta com um senhor de 60 anos que “bandido bom é bandido morto”, balançando a cabeça para cima e para baixo o idoso concorda.

A adolescente com roupa de ginástica olha assustada de longe e comenta com o namorado:

- Acho que essa cidade não tem mais jeito.

- É verdade, a sociedade não se mobiliza – conclui ele, ajeitando a gola da camisa de marca.

Em menos de dez minutos um ronco barulhento de motor anuncia a chegada de uma viatura da policia militar. Os dois policiais saltam do Gol caindo aos pedaços sorridentes, cumprimentando os seguranças da rua como se fossem velhos amigos:

- Ora, ora, o que temos aqui? Pode deixar que cuidaremos dele com carinho.

Levantam o rapaz pela camisa (da mesma marca que a do namorado da menina do outro lado da calçada, aliás) jogando-o para banco de trás da capenga viatura. O carro acelera forte deixando uma fumaça fedorenta e turva no ar.

Em menos de dois minutos a rua volta a sua normalidade, com a rapidez de um suspiro de alívio, sumiram o velho, o homem, o casal e quem mais estivesse ali. Tranqüilidade absoluta, o silêncio era tão grande que se não fossem os apitos das garagens se abrindo, da calçada podia-se ouvir a musica do Jornal Nacional com perfeição.

8 comments:

Anonymous said...

Muito bom !!
Até q enfim vc resolveu compartilhar oq vc escreve em publico !!
mandou bem Ato Falante !!!
Ioio !!!

Anonymous said...

Pow, acho que isso foi aqui na minha rua. . .
Foi ou não foi, diz aê?
Mas tinha que ouvir o outro lado da história (a o malandro)!!!

Anonymous said...

Atividade no COX!!!

Anonymous said...

Eita Igou, eu ñ sabia desse seu dom pra cronista policial...sabia das suas vertentes pra crítico social e q tu tão bem defendes as tuas idéias.Vida Longa para o Ato-Falante...q aliás esse nome tá mto show.
Bjos querido.

Anonymous said...

Vc sabe que sou sua fã, né?! De longa data!!! Então, mto sucesso, querido!!! Bjinhos*

ana said...

Vc já sabe que eu amei q vc criou esse blog, ne? Gostei mt do post e do título tb. Agora é só dar sequência!!!
Beijooooo

Anonymous said...

Infelizmente vivemos em um país onde isso ocorre a toda hora.. sua crônica aponta os vários arquétipos de personagens da nossa sociedade: o segurança e a polícia despreparados, o burguês q acha q a melhor maneira de combater a violência é com mais violência, descrença e inércia da juventude além do detalhe da justificativa da maioria dos que entram para o mundo do crime – a marca da camisa, do tênis, etc, etc, etc...
Parabéns menino!!! Sucesso..

Anonymous said...

Você tem uma enorme sensibilidade para captar o "social" em especial o desajuste. Entender e escrever sobre isto necessariamente tem de fazer bem. Continue tratando de você. Escreva.