Agachada no quarto apertado, terço nas mãos apoiadas na velha mesa de cabeceira onde se encontrava um mini altar, um pequeno santuário ou algo próximo disso. As imagens de São Cosme e São Damião conviviam bem com a de Iemanjá que ficava bem ao lado de uma oração de Chico Xavier escrita à mão numa folha de caderno do seu filho.
Ele que justo naquelas primeiras horas daquela manhã dominical era o principal motivo da sua preocupação. Havia saído as 10 horas da noite de sábado, não informou o destino ao certo. Sua satsifação se resumiu apenas em dizer que ia "sair com a galera".
Durante a madrugada ela ouviu tiros, não soube perceber se vieram do asfalto, ou se veio do morro de trás. Na rádio AM, que aprendeu a gostar por causa de sua avó que costumava arrumar a casa na companhia dos locutores de voz anasalada, só escutava notícias nada animadoras que ecoavam na mente.
Passam-se as horas, esgotam-se as orações, celular fora de área...
Larga o terço, abre a geladeira coloca meio copo de água que desce com gosto de remédio pra dor de barriga. Senta-se no banco de plástico e apoia a cabeça com as mãos na mesa. Não há mais o que fazer, resignou-se e entregou "à Deus" pára não ter que dar adeus aquilo que de mais valioso ela tinha.
O latido do vira-lata interrompe sua agonia, o tênis arrastando no chão confirma: era ele, pois ela sabia de longe o ritmo daqueles passos e o jeito como aqueles pés tocavam o chão. O filho chega, cara de cansado, dá um beijo na mãe, abre a geladeira, coloca um copo cheio de Coca-Cola, bebe com satisfação. Dá outro beijo na mãe e se joga no sofá para dormir o sono dos justos.
Ela ajeita o lençol, engole o choro e respira aliviada. Coloca uma roupa para ir a feira daquele bairro de ruas estreitas da cidade onde as mães envelhecem mais rápido e todas as orações são válidas.
6 comments:
Que absurdo! Já tava me fazendo sofrer e ele voltou vivinho da silva? É que vc não é adepto dos finais tristes, ne? Mas, mesmo td acabando bem, gostei mt.
beijos
Gostei muito tb, o final das nossas vidas já estão escritas como vai ser e qdo vai ser, a gente só tem o poder de diferenciar os caminhos, mas todos acabam sempre no mesmo lugar.
Abraços.
Como eu estava sofrendo... Que alívio senti ao chegar ao final da crônica.Ufa! É,quem caminha com DEUS nunca está sozinho.
Beijos
Que alívio no fim do texto hein...amor de mãe é único!!!
Bjinhus
Ufa Igor...por um instante pensei q tu tinhas matado o filho da mãe desse conto... como sempre objetivo e auto explicativo seus textos dessa nossa tal realidade.
Bjo grande.
Ótima narrativa!!!
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