Wednesday, September 27, 2006

Dumembolada, dum-dum!



Resolviembolar, decidimisturarpara vernoquedá
jádiriaovelhoguerreiro-ro-ro-ro!
nãoquero explica
rex
plicar
menteconfusa confessano quilombomoderno
de i-
i, de imaginaçãão!!
Nãotententender-
nem-tente... nãotente!
Não
tenho essaintenção!
rewind
, wind ind!
diriaovelhoguerreiro-ro-ro-ro
confessano
quilombo
moderno-erno-erno
cocotas de saia e senhores de terno
confessano quilombo moderno
-erno-erno
drum´n´bass, dub emsom stereo!


Texto: Igor2m
Desenho: The Lonely One
Artista:
Aaron Gritzka
Trilha sonora vespertina: Faixa 04 - "Changez Out" (Monoaural mix) Kassin & Berna Ceppas - CD Otto - Changez Out - Samba Pra Burro Dissecado

Monday, September 25, 2006

Porta-retrato

Já não havia tempo pra mais nada, papéis assinados, burocracias resolvidas. Decidido, ele colocava o que restou de suas (poucas) miúdezas na caixa de papelão: um porta-retrato com a foto de sua família, um duende de durepox, presente de alguém que ele não lembrava quem por mais que se esforçasse.

Sua honestidade não lhe permitia dizer pra si mesmo que aquele apartamento era a oitava maravilha do mundo, muito pelo contrário. No verão se tornava uma verdadeira fornalha, o sol batia na janela da sala das 9 da manhã até as 5 da tarde, impedindo-o de qualquer possibilidade de concentração para compor uma nova letra. Isso pra não falar dos dias congelantes de julho, que ao menos lhe garantiram alguns porres solitários de vinho vagabundo.

Porém, sabia que iria sentir saudades daquela rua, do carinho das irmãs velinhas de sotaque árabe que o ajudaram quando ele ali chegou, do solícito seu Antônio, porteiro prestativo que o socorreu nas piores horas.


Refletiu sobre tudo isso, e de como a vida às vezes fala com a gente e nem percebemos. De como são tolas as pessoas que acham que o amor só se manifesta em um beijo, numa transa, em cartas de amor, ou coisas semelhantes. Todas aquelas pessoas que cruzaram seu caminho fizeram com que ele súbitamente refletisse sobre tudo isso, como nunca o fizera antes.

Mas nada o fazia mudar de idéia. Os últimos dias com aquela que até dias atrás fazia inúmeros planos foram decisivos. A ausência, as divergências, foram minando. Sentimento não faltava, vontade também não. Mas a falta de esperança num futuro junto a ela soava como vertigem para ele que gostava de sonhar. E tudo o que você precisa as vezes é de que estejam com você. Pode parecer óbvio, mas não é, não pra ele.

Era hora de fazer uma curva em sua história, aliás já havia passado da hora. E de certa forma aquele apartamento foi palco de muitos momentos com ela: uns bons e outros nem tanto. Se a mudança de ares iria lhe fazer bem só o tempo irá dizer.

Deixou as chaves em cima da mesa, despediu-se dos vizinhos. Para ela, escreveu uma carta numa folha de ofício meio amarrotada, pois sabia que se fosse terminar tudo pessoalmente não teria coragem.

Sunday, September 24, 2006

Comando Azul














Em 2004 denunciaram os jornais
Como se fosse novidade
Nos asfaltos, vielas e demais
Arrancando deprezo da cidade


Bonde caçando bonde
Traçante, traficante
Mandante, paz reinante


Nas ruas os tribunais
Tumultuando
Defensores da paz
Atrasando

Modernos capitães do mato
Comando Azul, se te pegam no ato
Reze!

Thursday, September 21, 2006

O Acerto

- Não é você, sou eu, entende?
- Hã? Repete que eu não entendi.

O som vindo das enormes caixas fazia tremer as janelas dos prédios mais próximos e impedia qualquer possibilidade de um diálogo.

- O problema sou eu, Fabinho!
- Como assim, gata? Não to sacando ainda...
- Tem a minha faculdade, meu curso, meu estágio... não dá, mais!
- Porra, como não dá? E tudo o que fiz por você? Todos os riscos que passei pra ficar contigo?
- Fabinho, você não entende...

Realmente não entendia. Aquela altura da madrugada ele já havia apertado uns 5 baseados com seus amigos, fora as cervejas que lhe eram oferecidas por gente que o admirava. Geralmente era assim às sextas-feiras: a quadra lotada, "soldados" de metro e meio desfilando com fuzis atravessados no peito ou pistolas na cintura, chamando à atenção das meninas da comunidade e inclusive das patricinhas que chegavam ao baile acompanhadas dos playboys que muito provavelmente gostariam de ter uma 9 milímetros debaixo dos seus blusões de surfista.

- Porra, Mila, o problema sou eu sim, diz aí... para de caô e diz logo...
- Não amor não é... eu preciso de um tempo, entende?
- Tempo? Tempo pra quê? Você não aceita o que eu sou, fala a verdade!
- Fabinho, você está sendo injusto!
- Injusto, porra nenhuma, essa é a verdade tu não quer mais, né?? Não quer ser vista comigo, tem vergonha de mim...

A discussão do casal é interrompida por um dos soldados de Fabinho, que chega quase sem fôlego e apressado para avisar ao chefe que os "hômi" estavam lá embaixo alegando não terem recebido o "arrêgo" para que o baile rolasse sem problemas.

- Já volto, só preciso acertar a grana dos canas, guenta aê...
- Tudo bem.

Se despediram com um breve beijo. Aquela foi a noite mais quente do verão de 1989, e para Camila a mais triste também. Hoje ela é médica formada, dá aula em uma universidade federal do Rio de Janeiro. Sobre Fabinho ela nunca mais teve notícias.

Friday, September 15, 2006

Calçada Testemunha





















Cão de rua
Sem dono
Sem rumo
Cão de rua
Sem trono
Sem muro

Liberdade?
Liberdade!
Liberdade.
Liberdade...

Thursday, September 14, 2006

O Terno e o Mantra

Era sempre assim. Bastava ele pisar na estação do metrô para a vendedora de cartões telefônicos anunciar que a semana começara para ele e mais uns milhões de brasileiros também. Não raro ele tinha pesadelos com aquela voz irritante. Era algo sincronizado, num ritmo inabalável:

- Cartões pré-pago: Claro, Oi, Tim, Vivo, Eeembratel e Telemar!
(pausa)

- Cartões pré-pago: Claro, Oi, Tim, Vivo, Eeembratel e Telemar!
(pausa)

O anúncio soava como um mantra as avessas, fazendo despertar naquele sossegado rapaz os “instintos mais primitivos”, sendo assim não era raro pegar a si próprio planejando a maneira mais rápida e silenciosa de executar a pobre coitada.

Especialmente naquela abafada manhã de segunda-feira que nascia com gosto de guarda-chuva molhado na boca e cabeça pesando uns 100 quilos. Na noite anterior havia tomado todas, pra esquecer da vigésima briga que teve com ex-atual-ficante-futura-namorada em menos de 2 semanas.

Não sabia se estava mais puto por tudo o que havia dito ou por todas as verdades que escutara dela. Incontestável mesmo só a certeza de que a combinação cerveja, caipirinha e vodka não traziam a pessoa amada em três dias, como essas mães-de-santo prometem em cartazes vagabundos colados nos postes.

Saiu do metrô na estação carioca. Não eram nem 9 da manhã ainda e o sapato já apertava. O terno azul marinho meio amarrotado agravava a sua agonia. A ultima ponta do seu humor sarcástico se esvairia só de pensar que teria que passar metade do seu dia despachando naquele escritório de 10m x 10m.

O dia se arrastou até o fim do seu expediente. Voltou pra casa como um soldado voltando de uma exaustiva guerra. Dor de cabeça, sono atrasado, metro lotado. Tudo o que desejava era sua cama.

Já eram quase 24 horas de ressaca, 5 horas para o sono renovador...

(pausa)

- Cartões pré-pago: Claro, Oi, Tim, Vivo, Eeembratel e Telemar!

Tuesday, September 12, 2006

Numa Noite Dessas

- Socorro! Ladrão!

Os gritos são de uma moça de uns 20 e poucos anos e cortam a calmaria daquela rua residencial de um tradicional bairro de classe média da cidade. Correria, barulhos de buzina, dois tiros são disparados. O jovem de pele “parda” (aquele termo politicamente correto para identificar aquele que não pode ser considerado branco e tem vergonha em dizer que é negro) cai como jaca podre no chão.

O tiro veio de um dos seguranças da rua, que acompanhado do guardinha do shopping daquela mesma rua abordam o garoto de aproximadamente 18 anos e 1,70m :

- E agora, seu filho da puta, Vai roubar de quem?

- Pois é, quem é o malandro agora, hein? Diz aí, otário! Fique sabendo que ninguém rouba na minha rua!

Caído no chão e sangrando na altura do ombro direito o assaltante respirava com dificuldade. Não bastasse a dor do ferimento, um dos seguranças lhe fez a gentileza de pressionar-lhe o tórax com um desses tênis importados, com 6 ou 12 molas talvez.

A moça que fora assaltada permanece atônita, chorando.

Não demorou nem 5 minutos, a rua que as nove da noite estava praticamente deserta atrai curiosos. Um homem de meia-idade, trajando um desses ternos de grife, voltando do trabalho, comenta com um senhor de 60 anos que “bandido bom é bandido morto”, balançando a cabeça para cima e para baixo o idoso concorda.

A adolescente com roupa de ginástica olha assustada de longe e comenta com o namorado:

- Acho que essa cidade não tem mais jeito.

- É verdade, a sociedade não se mobiliza – conclui ele, ajeitando a gola da camisa de marca.

Em menos de dez minutos um ronco barulhento de motor anuncia a chegada de uma viatura da policia militar. Os dois policiais saltam do Gol caindo aos pedaços sorridentes, cumprimentando os seguranças da rua como se fossem velhos amigos:

- Ora, ora, o que temos aqui? Pode deixar que cuidaremos dele com carinho.

Levantam o rapaz pela camisa (da mesma marca que a do namorado da menina do outro lado da calçada, aliás) jogando-o para banco de trás da capenga viatura. O carro acelera forte deixando uma fumaça fedorenta e turva no ar.

Em menos de dois minutos a rua volta a sua normalidade, com a rapidez de um suspiro de alívio, sumiram o velho, o homem, o casal e quem mais estivesse ali. Tranqüilidade absoluta, o silêncio era tão grande que se não fossem os apitos das garagens se abrindo, da calçada podia-se ouvir a musica do Jornal Nacional com perfeição.