- Socorro! Ladrão!
Os gritos são de uma moça de uns 20 e poucos anos e cortam a calmaria daquela rua residencial de um tradicional bairro de classe média da cidade. Correria, barulhos de buzina, dois tiros são disparados. O jovem de pele “parda” (aquele termo politicamente correto para identificar aquele que não pode ser considerado branco e tem vergonha em dizer que é negro) cai como jaca podre no chão.
O tiro veio de um dos seguranças da rua, que acompanhado do guardinha do shopping daquela mesma rua abordam o garoto de aproximadamente 18 anos e 1,70m :
- E agora, seu filho da puta, Vai roubar de quem?
- Pois é, quem é o malandro agora, hein? Diz aí, otário! Fique sabendo que ninguém rouba na minha rua!
Caído no chão e sangrando na altura do ombro direito o assaltante respirava com dificuldade. Não bastasse a dor do ferimento, um dos seguranças lhe fez a gentileza de pressionar-lhe o tórax com um desses tênis importados, com 6 ou 12 molas talvez.
A moça que fora assaltada permanece atônita, chorando.
Não demorou nem 5 minutos, a rua que as nove da noite estava praticamente deserta atrai curiosos. Um homem de meia-idade, trajando um desses ternos de grife, voltando do trabalho, comenta com um senhor de 60 anos que “bandido bom é bandido morto”, balançando a cabeça para cima e para baixo o idoso concorda.
A adolescente com roupa de ginástica olha assustada de longe e comenta com o namorado:
- Acho que essa cidade não tem mais jeito.
- É verdade, a sociedade não se mobiliza – conclui ele, ajeitando a gola da camisa de marca.
Em menos de dez minutos um ronco barulhento de motor anuncia a chegada de uma viatura da policia militar. Os dois policiais saltam do Gol caindo aos pedaços sorridentes, cumprimentando os seguranças da rua como se fossem velhos amigos:
- Ora, ora, o que temos aqui? Pode deixar que cuidaremos dele com carinho.
Levantam o rapaz pela camisa (da mesma marca que a do namorado da menina do outro lado da calçada, aliás) jogando-o para banco de trás da capenga viatura. O carro acelera forte deixando uma fumaça fedorenta e turva no ar.
Em menos de dois minutos a rua volta a sua normalidade, com a rapidez de um suspiro de alívio, sumiram o velho, o homem, o casal e quem mais estivesse ali. Tranqüilidade absoluta, o silêncio era tão grande que se não fossem os apitos das garagens se abrindo, da calçada podia-se ouvir a musica do Jornal Nacional com perfeição.