Wednesday, October 25, 2006

Masdemodisquê (Palavras Que Predecem)

E depois da quinta dose ela desistiu desse papo de amores perfeitos.
Ele de ser um cara legal.
Mais um gole, e encontram nos defeitos suas afinidades.
Ele machista e cabeça-dura.
Ela meio desajeitada e possessiva, apesar de toda dissimulação.

Mais uma rodada.
Ele não quer mais nada, além de esquecer aquilo que o incomoda há semanas.
Ela só afeto e palavras doces, mesmo que falsas.
O barulho em volta impede qualquer papo que exija um reflexão mais profunda.
Mas ele não se importava também.
Ela muito menos.

Mesmo assim Cazuza, Vinícius, Djavan (CD, Vinil ou IPod?), Jabor, Dan Brown, Veríssimo (Erico ou Luis Fernando?), Lula, FHC, PT, PSDB, não sei mas o que e outros blá-blá-blás preenchiam o tempo anterior a real intenção de ambos.

Pessoas passam. Começa a chover.
Terminam as pessoas. Pára a chuva.

Silêncio.
A conta.
Ele paga ou ela paga, ambos pagam, garçom recebe, dá o troco, pega a gorjeta.

Taxi.
Chegaram ao destino.
Ele paga ou ela paga, ambos pagam, taxista recebe, dá o troco, não há gorjeta.

10 minutos disso. 20 daquilo. Mais 30 daquilo outro.
A conta.
Ele paga. Não dá gorjeta.

Ele satisfeito, ou não.
Ela nem tanto.
Ele quer voltar a ser um bom rapaz.
Ela quer um romance ideal.

Mas eles sabem que nessa cidade não é comum achar pessoas que se entendam a partir de um mero olhar. Palavras que precedem se fazem necessário, e mesmo assim o sucesso não é garantido.

Tuesday, October 17, 2006

Quebra-Molas On Line

E nós voltamos naquela rua comprida e estreita que foi palco da nossa infância. O meio-fio de pedras tortas, que vez por outra causava bolhas nos pés afoitos dos meninos na hora do pic ainda estava lá. Apesar dos 15 anos passados, alguns buracos mal remendados também permaneceram.

Mas o vapor que soprava nos verões e fazia derreter em 1 minuto os sacolés da tia Vera agora era mais abafado. Olhando pro pouco céu que restava senti falta das pipas, que ao entardecer formavam um balé colorido não ensaido. Escassas também se tornaram as sombras providenciais das árvores. Ouvi dizer que podaram todas, questão de segurança.

No lugar da casa do seu Milton (o velho surdo que sempre agradava a garotada com as suas mangas e goiabas), do seu Guilherme (o primeiro lusitano que sabia mais de 300 piadas de português) e da Dona Lena (a vizinha ranzinza que sempre furava nossas bolas compradas com muito sacrifício) ergueram-se três caixas de concreto, 4 andares cada, com grades, câmeras e 2 vagas na garagem.

Aliás, essas tais vagas me pareceram insuficientes, pois naquele final de semana as calçadas estavam tomadas pelos carros. Desci o olhar pro asfalto e notei dois, três, quatro, cinco quebra-molas ao longo daquilo que era o nosso Maracanã. Um amigo das antigas me garantiu que mês que vem vai ficar melhor, vão colocar cancelas nas duas entradas da rua.

Nosso papo é interrompido pelo menino que faz as entregas da loja que hoje funciona onde era a antiga quitanda do seu Manoel. Você pode encomendar via telefone ou internet, aceitam todos os cartões de crédito e entregam em menos de 15 minutos.

Friday, October 06, 2006

Todo Aquele Cinza

Tire a roupa!
Desculpa a sinceridade mas o teu corpo tem sido o meu melhor refúgio nestes últimos dias... ...não pense você que aquele cara romântico que você conheceu se foi, mas sabemos exatamente que é misturando o suor que nosso sentimento se consuma da melhor forma...

Dispa-se!
Temos um pouco mais de 4 horas até o sol nascer, engolir o café mal feito e encarar olhares estranhos, passos apressados e todo aquele cinza. Vem logo, encosta teu corpo ao meu, e deixa tudo mais fácil...

e...
nem...
percebi que amanheceu...

Te olho dormindo e vejo ali a minha paz e a busca de novos rumos, talvez você nunca saberá disso... ...ando pensando muito em nós.

O despertador me avisa que é hora de ir. Te acordo com um beijo no rosto.

Tuesday, October 03, 2006

A-d-e-u-s

Agachada no quarto apertado, terço nas mãos apoiadas na velha mesa de cabeceira onde se encontrava um mini altar, um pequeno santuário ou algo próximo disso. As imagens de São Cosme e São Damião conviviam bem com a de Iemanjá que ficava bem ao lado de uma oração de Chico Xavier escrita à mão numa folha de caderno do seu filho.

Ele que justo naquelas primeiras horas daquela manhã dominical era o principal motivo da sua preocupação. Havia saído as 10 horas da noite de sábado, não informou o destino ao certo. Sua satsifação se resumiu apenas em dizer que ia "sair com a galera".

Durante a madrugada ela ouviu tiros, não soube perceber se vieram do asfalto, ou se veio do morro de trás. Na rádio AM, que aprendeu a gostar por causa de sua avó que costumava arrumar a casa na companhia dos locutores de voz anasalada, só escutava notícias nada animadoras que ecoavam na mente.

Passam-se as horas, esgotam-se as orações, celular fora de área...
Larga o terço, abre a geladeira coloca meio copo de água que desce com gosto de remédio pra dor de barriga. Senta-se no banco de plástico e apoia a cabeça com as mãos na mesa. Não há mais o que fazer, resignou-se e entregou "à Deus" pára não ter que dar adeus aquilo que de mais valioso ela tinha.

O latido do vira-lata interrompe sua agonia, o tênis arrastando no chão confirma: era ele, pois ela sabia de longe o ritmo daqueles passos e o jeito como aqueles pés tocavam o chão. O filho chega, cara de cansado, dá um beijo na mãe, abre a geladeira, coloca um copo cheio de Coca-Cola, bebe com satisfação. Dá outro beijo na mãe e se joga no sofá para dormir o sono dos justos.

Ela ajeita o lençol, engole o choro e respira aliviada. Coloca uma roupa para ir a feira daquele bairro de ruas estreitas da cidade onde as mães envelhecem mais rápido e todas as orações são válidas.